Brasil aparece como líder global em adoção de criptomoedas, enquanto o DREX avança como infraestrutura regulada para ativos digitais e tokenização.
O mercado de criptomoedas ganhou um novo destaque nesta semana após dados da Chainalysis apontarem o Brasil como líder global em adoção de criptoativos em 2026. O levantamento, divulgado em 23 de setembro, estima que o país movimentou US$ 252,5 bilhões em criptomoedas nos 12 meses encerrados em junho, colocando o mercado brasileiro acima de outras grandes economias analisadas. O número chama atenção não apenas pelo tamanho da movimentação, mas também porque ocorre em um momento no qual o Banco Central amplia a estrutura regulatória dos ativos virtuais e desenvolve o DREX. A principal dúvida para quem acompanha esse cenário é entender se o crescimento das criptomoedas significa que o DREX terá de competir com elas ou se as duas tecnologias poderão cumprir funções diferentes dentro da economia digital brasileira.
Brasil amplia sua presença no mercado global de criptomoedas
Os dados mais recentes mostram que o mercado brasileiro de criptoativos deixou de ser um segmento restrito a um grupo pequeno de usuários. Segundo a Chainalysis, o Brasil liderou o ranking global de adoção de criptomoedas em 2026 e movimentou aproximadamente US$ 252,5 bilhões no período de 12 meses encerrado em 30 de junho. O levantamento considera diferentes formas de atividade relacionadas a criptoativos e utiliza uma metodologia própria para estimar a dimensão das economias digitais em cada país. O resultado coloca o Brasil em uma posição relevante dentro do mercado internacional e ajuda a explicar por que temas como Bitcoin, stablecoins, exchanges, custódia e tokenização ganharam espaço na agenda regulatória brasileira.
Esse crescimento, porém, não significa que criptomoedas tenham se transformado em dinheiro oficial no país. O próprio Banco Central diferencia ativos virtuais de moedas emitidas pela autoridade monetária: criptomoedas não são emitidas nem garantidas pelo BC e apresentam riscos que ficam associados às pessoas envolvidas nas operações. Essa distinção é importante porque o aumento da utilização de criptoativos pode trazer novas oportunidades tecnológicas, mas também envolve volatilidade, riscos de fraude, perdas decorrentes de falhas de segurança e exposição a plataformas ou serviços que podem apresentar diferentes níveis de proteção. Para o consumidor brasileiro, portanto, crescimento de adoção não deve ser interpretado automaticamente como sinônimo de segurança ou estabilidade.
Onde o DREX entra nessa nova economia digital
É justamente nesse ponto que o DREX apresenta uma proposta diferente das criptomoedas. De acordo com o Banco Central, o DREX é a representação digital do real e está sendo desenvolvido como uma infraestrutura para operações financeiras com ativos digitais, utilizando tecnologia de registro distribuído. O projeto prevê a participação de intermediários financeiros autorizados, como bancos, e busca permitir operações envolvendo ativos tokenizados dentro de um ambiente integrado e padronizado. Na prática, isso significa que o DREX não foi concebido como uma criptomoeda descentralizada para substituir o real, mas como uma infraestrutura financeira digital conectada ao sistema regulado brasileiro.
A diferença também aparece na forma como o dinheiro digital pode ser utilizado. No ambiente projetado pelo Banco Central, contratos inteligentes podem coordenar operações de maneira automática, fazendo com que a transferência de um ativo e o pagamento correspondente ocorram de forma condicionada. O próprio BC apresenta como exemplo uma negociação de imóvel tokenizado em que o pagamento e a transferência do ativo podem ocorrer simultaneamente, mecanismo conhecido como liquidação atômica. Essa lógica aproxima o DREX de algumas funcionalidades presentes no universo blockchain, mas dentro de uma estrutura institucional diferente. Enquanto uma criptomoeda como o Bitcoin possui sua própria rede e não é emitida pelo Banco Central, o DREX está relacionado diretamente ao real e ao sistema financeiro regulado.
Tokenização pode aproximar DREX e mercado cripto
A conexão mais importante entre os dois universos pode estar na tokenização. O Banco Central explica que a tokenização consiste na representação digital de ativos e que a tecnologia DLT pode permitir operações mais automatizadas, fracionadas e integradas. No planejamento estratégico para 2026-2029, o BC também colocou o desenvolvimento do DREX e a tokenização de ativos entre suas iniciativas de inovação financeira. Isso cria uma área de contato entre a infraestrutura oficial e tecnologias que já são utilizadas no mercado de criptoativos, sem que isso signifique que DREX e criptomoedas sejam a mesma coisa.
Outro movimento recente reforça essa direção. Em 16 de setembro, a Comissão de Valores Mobiliários informou que seu Grupo de Trabalho de Tokenização entregou uma minuta para criação de um programa-piloto voltado a testar operações com valores mobiliários em redes de tecnologia de registro distribuído. A proposta contempla atividades como emissão, distribuição, negociação, custódia e liquidação de ativos em redes DLT. A iniciativa mostra que a tokenização está sendo analisada não apenas como tendência tecnológica, mas como uma possível infraestrutura para operações reguladas do mercado de capitais. Para o leitor, a principal questão é separar três conceitos: criptoativos, que são ativos digitais com características próprias; tokenização, que representa ativos em ambientes digitais; e DREX, que integra uma infraestrutura oficial para transações financeiras digitais.
O avanço simultâneo desses três segmentos pode transformar a maneira como determinados ativos financeiros são registrados, negociados e liquidados no Brasil. Ainda assim, o desenvolvimento tecnológico não elimina riscos: redes digitais precisam de segurança, regras claras, proteção contra fraudes e mecanismos de privacidade. O Banco Central afirma que a segurança, a resiliência financeira e a prevenção de fraudes estão entre os objetivos de seu planejamento para os próximos anos. Por isso, a expansão do mercado cripto e o desenvolvimento do DREX devem ser acompanhados também pelo amadurecimento da regulação e da educação financeira.
O dado de US$ 252,5 bilhões movimentados em criptoativos ajuda a dimensionar a importância que o mercado digital já alcançou no Brasil. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do DREX mostra que o sistema financeiro tradicional também está incorporando tecnologias associadas à economia digital, especialmente DLT, contratos inteligentes e tokenização. As duas frentes, entretanto, possuem características, objetivos e níveis de regulação diferentes. Para quem acompanha o futuro do dinheiro digital brasileiro, compreender essas diferenças é mais importante do que tratar DREX e criptomoedas como concorrentes diretos. O cenário aponta para uma convivência entre diferentes formas de ativos e infraestruturas digitais, com segurança, regulação e compreensão dos riscos como pontos centrais dessa transformação.
Fonte:
- Chainalysis — Relatório Global de Adoção de Cripto 2026 (Chainalysis)
- CVM — Proposta de piloto para testar tokenização no mercado de capitais (Serviços e Informações do Brasil)
- CVM — Grupo de Trabalho de Tokenização (Serviços e Informações do Brasil)
- CVM — Fórum sobre regulação e riscos em ativos digitais (Serviços e Informações do Brasil)

