Volume crescente de dados sensíveis movimentados por administradores fiduciários eleva a relevância de protocolos de proteção de dados e continuidade de negócios no mercado de capitais
A operação de um administrador fiduciário envolve o processamento diário de grandes volumes de dados sensíveis: informações cadastrais de cotistas, registros de movimentações financeiras, documentos que sustentam direitos creditórios e relatórios que embasam decisões de investimento. Esse volume de informação, associado à digitalização crescente dos processos do mercado de capitais, tem elevado a segurança da informação à condição de pilar central de governança, ao lado de temas mais tradicionais como conformidade regulatória e gestão de risco de crédito. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) mantém um grupo consultivo dedicado especificamente ao tema, reconhecendo a cibersegurança como uma prioridade estrutural para o setor.
Continuidade de negócios como extensão da governança
Além da proteção contra acesso não autorizado a dados sensíveis, a segurança da informação no mercado de fundos também abrange a capacidade de manter a operação funcionando mesmo diante de incidentes técnicos ou eventos que comprometam a infraestrutura tecnológica de uma instituição. Planos de continuidade de negócios, testes periódicos de recuperação de sistemas e redundância de infraestrutura passaram a compor, junto com os controles de acesso e criptografia, o conjunto mínimo de práticas esperadas de administradores fiduciários e custodiantes que operam em escala.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a segurança da informação deixou de ser uma função de suporte para se tornar parte central da proposta de valor de um administrador fiduciário.
“O investidor confia ao administrador fiduciário informações sensíveis sobre sua posição financeira e, em muitos casos, sobre a própria estrutura de seus negócios quando o fundo envolve direitos creditórios corporativos. Proteger essas informações com o mesmo rigor com que se protege o próprio patrimônio do fundo não é mais opcional”, ressalta o executivo.
Auditorias independentes de segurança, testes de invasão controlados e certificações internacionais de gestão de segurança da informação têm se tornado prática recorrente entre instituições financeiras de maior porte, funcionando como evidência objetiva de maturidade nesse tipo de controle perante clientes institucionais e órgãos reguladores.
Adequação à LGPD reforça exigências sobre tratamento de dados
A Lei Geral de Proteção de Dados estabeleceu obrigações específicas sobre como instituições financeiras devem coletar, armazenar e tratar dados pessoais de cotistas, cedentes e demais partes envolvidas em operações estruturadas. Para administradores fiduciários que processam volumes elevados de informação cadastral, especialmente aqueles que atuam também na representação de investidores não residentes e no onboarding de novos fundos, a adequação contínua a essas obrigações passou a demandar estrutura dedicada de compliance e segurança da informação, integrada à própria operação tecnológica da instituição.
A ID CTVM opera com infraestrutura tecnológica proprietária, o que permite à instituição manter controle direto sobre os protocolos de segurança aplicados em cada camada de sua operação, da custódia de ativos à movimentação de recursos por meio de conta de pagamentos integrada nativamente, autorizada pelo Banco Central do Brasil. A companhia atende mais de 9 mil contas operacionais ativas, volume que reforça a importância de processos de segurança da informação padronizados e escaláveis.
Manter essa infraestrutura sob controle direto, em vez de depender integralmente de provedores terceirizados para funções críticas, também amplia a capacidade da instituição de responder rapidamente a qualquer incidente identificado, reduzindo o tempo entre a detecção de uma anomalia e a aplicação das medidas de contenção necessárias.
Investimento em segurança deve acompanhar o ritmo de digitalização
Para Balassiano, o investimento em segurança da informação deve crescer na mesma proporção que a digitalização do mercado de capitais.
“Quanto mais processos migram para ambientes digitais integrados por API, maior a superfície que precisa ser protegida. Isso exige um investimento contínuo, não uma solução pontual implementada uma única vez”, afirma o diretor da ID CTVM.
A colaboração entre diferentes participantes do mercado também tem se mostrado relevante nesse contexto. Grupos consultivos setoriais, como o mantido pela ANBIMA, permitem que administradores fiduciários, gestores e custodiantes compartilhem boas práticas e discutam ameaças emergentes de forma coordenada, em vez de tratar a segurança da informação como um desafio isolado de cada instituição.
Tema deve permanecer central na agenda regulatória
A avaliação de especialistas do setor é que a segurança da informação deve seguir como um dos temas centrais da agenda regulatória e de governança do mercado de fundos brasileiro nos próximos anos, à medida que a infraestrutura financeira do país se torna cada vez mais digital e interconectada. Para administradores fiduciários, custodiantes e demais prestadores de serviços essenciais, a robustez desses protocolos deve se consolidar como parte inseparável da confiança depositada pelo investidor, tanto institucional quanto de varejo, na indústria de fundos estruturados.
A tendência é que investidores institucionais passem a exigir, cada vez com mais frequência, relatórios específicos sobre práticas de segurança da informação como parte do processo de due diligence de novos parceiros, equiparando esse critério a outros já consolidados, como solidez financeira e histórico de conformidade regulatória.

