O Banco Central reformulou a base tecnológica do real digital, e a decisão levanta questões fundamentais sobre o projeto.
Desde que o Banco Central apresentou o DREX ao mundo, em 2023, a promessa era clara: o Brasil seria protagonista na corrida global pelas moedas digitais de banco central, as chamadas CBDCs. A infraestrutura seria construída sobre blockchain, os contratos inteligentes funcionariam em tempo real e o real digital transformaria a maneira como brasileiros guardam, movimentam e investem dinheiro. O que pouca gente esperava é que, pouco mais de dois anos depois, essa fundação tecnológica seria abandonada. Em março de 2026, durante o LIFT Day em Brasília, o Banco Central confirmou o que o mercado já especulava: o projeto saiu do Hyperledger Besu, a rede blockchain permissionada que sustentava os testes, e passou a focar em um objetivo muito mais específico e operacional, a reconciliação de gravames no sistema de crédito. A pergunta que ficou no ar é inevitável: o que mudou, e o que isso muda para quem esperava o DREX?
O Problema Que Derrubou a Blockchain do DREX
Para entender a mudança de rota, é preciso voltar ao obstáculo central que o Banco Central encontrou ao longo dos pilotos realizados entre 2024 e 2025. A tecnologia blockchain, por sua própria natureza, tende à transparência. Ela é eficiente em rastreabilidade e auditabilidade, mas apresenta limitações sérias quando o assunto é privacidade estruturada. No contexto do sistema financeiro brasileiro, isso se tornou um problema intransponível. Cada transação financeira carrega dados sensíveis de pessoas físicas e jurídicas, e o modelo testado, baseado em DLT pública permissionada, não conseguia conciliar a transparência inerente da tecnologia com o sigilo bancário exigido pela Lei Geral de Proteção de Dados e pelas normas do próprio Banco Central. As vulnerabilidades identificadas nos mecanismos de controle de permissões e a complexidade crescente dos contratos inteligentes foram fatores que aceleraram a decisão de pausar e reformular. Segundo análises publicadas pelo portal DeFin Insights e pelo advogado Lucas Caraípa, especializado em regulação de criptoativos, o BC tomou a decisão tecnicamente correta ao interromper um projeto que não atendia satisfatoriamente aos requisitos de confidencialidade, em vez de avançar por pressão de calendário. Nesse ponto, vale diferenciar o DREX de tecnologias como o Bitcoin ou o Ethereum: enquanto as criptomoedas operam em redes abertas e descentralizadas, onde qualquer participante pode verificar transações, o DREX foi concebido como um sistema fechado, controlado pelo BC e intermediado por instituições financeiras autorizadas. O problema não estava na descentralização, mas na dificuldade de combinar rastreabilidade com privacidade dentro de uma arquitetura DLT, mesmo permissionada. (Fonte: https://defin.global/artigos/drex-e-tokenizacao-o-que-o-piloto-do-banco-central-sinaliza-para-credito-em-2026 | https://www.lucascarapia.adv.br/post/drex-em-revis%C3%A3o)
A solução encontrada pelo BC foi redirecionar o foco para uma infraestrutura mais concreta e imediatamente útil ao sistema financeiro: uma plataforma centralizada de registro e consulta de gravames. Gravames são as restrições jurídicas que incidem sobre ativos dados como garantia em operações de crédito. Hoje, verificar se um imóvel ou veículo já foi dado como garantia em outro banco exige consultas manuais a diferentes cartórios e sistemas, um processo lento, custoso e sujeito a erros. Com o novo modelo do DREX, o BC pretende automatizar esse processo, criando uma infraestrutura que os bancos possam consultar em tempo real. É uma proposta menos cinematográfica do que a visão original, mas com impacto prático direto e imediato no mercado de crédito.
Tokenização Avança Mesmo Sem o DREX nas Redes Abertas
Se o DREX recuou, o mercado privado de tokenização no Brasil não esperou. Enquanto o Banco Central redesenhava sua infraestrutura, empresas e fintechs aceleraram a tokenização de ativos reais em redes descentralizadas. Segundo dados citados pelo DeFin Insights com base em CoinTelegraph Brasil e TradingView, o mercado brasileiro de tokens de ativos reais cresceu 2.249% em apenas um ano, atingindo R$ 2,876 bilhões em janeiro de 2026. A XDC Network lidera o volume de emissões no país, com R$ 2,68 bilhões, superando redes como XRP Ledger, Polygon e Plume. Empresas estão tokenizando recebíveis, cotas de fundos e títulos de dívida, dando liquidez a ativos que antes ficavam presos em estruturas operacionais lentas. A projeção do setor é que a tokenização possa destravar até R$ 7 trilhões em crédito, considerando os ativos que hoje não são aceitos como garantia por falta de infraestrutura adequada de registro e liquidação.
Nesse contexto, a mudança de rota do DREX não significa o fim do projeto, mas uma bifurcação de caminhos. De um lado, o setor privado avança rapidamente em redes abertas, movido por casos de uso reais e demanda de mercado. De outro, o Banco Central constrói uma infraestrutura pública mais controlada, voltada a resolver problemas concretos do sistema financeiro, como a reconciliação de garantias de crédito. A CVM, por sua vez, continuou avançando na regulação que viabilizou a ampliação da tokenização, criando um ambiente mais favorável mesmo sem o DREX em plena operação. O desafio que permanece é garantir que essas duas frentes, pública e privada, possam convergir em algum momento, criando uma infraestrutura integrada onde ativos tokenizados sirvam como garantia, dados do Open Finance alimentem modelos de risco e o real digital facilite a liquidação. Essa convergência ainda é promessa, mas a direção parece mais clara do que era há dois anos. (Fonte: https://defin.global/artigos/drex-e-tokenizacao)
A mudança tecnológica do DREX representa menos um fracasso do que um realinhamento de expectativas com a realidade operacional do sistema financeiro brasileiro. O Banco Central optou por não lançar um produto incompleto apenas para cumprir um cronograma. Para quem acompanha o setor de ativos digitais e criptomoedas no Brasil, o recado é que a infraestrutura pública seguirá seu ritmo próprio, enquanto o mercado privado já opera em alta velocidade. Entender essa diferença é fundamental para quem deseja tomar decisões informadas sobre o futuro do dinheiro digital no país. Acompanhar os comunicados oficiais do Banco Central em bcb.gov.br e as publicações da CVM em cvm.gov.br é o caminho mais seguro para se manter atualizado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

