Empresas criadas no litoral costumam carregar um rótulo difícil de descolar, e foi nesse cenário que o empresário de São Vicente Fredy da Silva Gonçalves Bento, conhecido como Fredy Restrito, construiu seus negócios. O rótulo é o de uma empresa regional, boa para a praia e limitada a ela.
A percepção ignora uma característica da Baixada Santista que poucos mercados brasileiros oferecem: a região submete qualquer operação a um teste de estresse permanente. Quem aprende a crescer aqui desenvolve, quase por necessidade, as competências que uma expansão nacional exige. Nesta leitura, veja por quê.
Um mercado que muda de tamanho duas vezes por ano
A Baixada Santista tem 1.805.451 moradores, segundo o Censo 2022 do IBGE. Fredy Restrito ressalta que esse número, porém, é só o ponto de partida. Na alta temporada e nos feriados prolongados, a população circulante se multiplica, e o comércio sai de semanas tranquilas para dias de fila.
Para o empresário, isso significa dimensionar estoque, equipe e caixa para dois mercados diferentes dentro do mesmo ano. Quem contrata demais fica com custo ocioso em maio. Quem contrata menos perde vendas em janeiro, e a oscilação também obriga a pensar em contratos temporários, treinamento rápido e fornecedores capazes de responder a picos de pedido. Essa gestão é, na prática, um treino para lidar com praças de perfis distintos quando a empresa sai da região.
O porto ao lado do depósito
Poucas regiões do país têm, a poucos quilômetros, o maior porto da América Latina e o maior mercado consumidor brasileiro. O Porto de Santos recebe boa parte das importações do país, e a capital paulista fica a cerca de 70 km. A Rodovia dos Imigrantes e a Via Anchieta ligam as duas pontas em pouco mais de uma hora, em condições normais de trânsito.
Para negócios que dependem de produto importado, como o de veículos elétricos, essa combinação encurta prazos e reduz o custo do trajeto entre o navio e a loja. Além disso, facilita algo menos visível: a proximidade com despachantes, transportadoras e fornecedores de serviço que uma operação de comércio exterior exige.
Por que o teste regional vale mais que o plano no papel
Um plano de expansão desenhado em planilha prevê demanda, custo e prazo. Uma operação que já funcionou em várias cidades vizinhas, com públicos diferentes, mostra o que de fato acontece quando essas previsões falham. Ela também revela custos que só aparecem na operação real, como a rotatividade de equipe e o tempo de maturação de uma loja nova. Essa diferença pesa na hora de convencer franqueados, bancos e fornecedores.
A trajetória de Fredy Restrito tem raízes nesse ambiente. Começou com a venda de roupas no Parque Bitaru, passou pela marca Restrito, pela gastronomia, com o Restaurante Capitães e o Hina Restaurante, e pela Eventos Litoral, até chegar à Litoral Mobilidade, que hoje prepara uma rede de franquias com expansão nacional.
O que a região ganha quando uma empresa local cresce
Quando um negócio nascido na Baixada Santista se expande, a sede, o centro de distribuição e as equipes de gestão tendem a permanecer onde tudo começou. Isso significa empregos qualificados, contratos com fornecedores locais e arrecadação que continua na região mesmo quando as vendas acontecem em outros estados. Os ganhos vão do prestador de serviço que atende a empresa ao restaurante perto do escritório.
Há também um efeito de exemplo. Cada empresa que sai do litoral para o país mostra que o caminho existe e que ele pode começar pequeno. Fredy da Silva Gonçalves Bento considera que empresas grandes podem nascer de começos pequenos quando existe trabalho, capacidade de adaptação e visão de longo prazo, uma ideia que a própria Baixada Santista ajuda a ilustrar.

