A Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), divulgou em 22 de setembro de 2026 uma nota técnica sobre os riscos dos chamados companheiros de IA para crianças e adolescentes. O documento avalia ferramentas desenvolvidas para simular relações de amizade, companhia ou vínculo afetivo por meio de conversas contínuas e personalizadas.
A análise considerou 13 plataformas disponíveis no mercado brasileiro. Entre os serviços avaliados estão Character.AI, Replika, Nomi, Chai e Talkie. De acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a preocupação não está apenas nas respostas produzidas pelos sistemas, mas também na forma como essas plataformas são desenhadas, personalizam as interações e utilizam os dados dos usuários.
O que são os companheiros de IA
Os companheiros de IA se diferenciam de chatbots convencionais por tentar manter uma relação contínua com a pessoa usuária. Para isso, podem recorrer a recursos como memória de conversas, personalização de respostas e simulação de reações emocionais. A proposta é criar uma experiência de proximidade, fazendo com que o sistema pareça um amigo, confidente ou personagem com quem o usuário mantém contato frequente.
Esse formato pode aumentar o envolvimento, especialmente entre crianças e adolescentes. A interação deixa de ser limitada a uma pergunta pontual e passa a reproduzir elementos associados a vínculos pessoais, como disponibilidade constante, atenção individualizada e respostas ajustadas ao histórico da conversa. Segundo a nota técnica, essa dinâmica exige avaliação específica quando envolve pessoas menores de 18 anos.
Riscos identificados pela Sedigi
Entre os principais riscos apontados estão o apego intenso, o uso compulsivo e a possível substituição de relações humanas. A preocupação é que a disponibilidade permanente do sistema e a personalização das conversas favoreçam uma dependência maior da ferramenta ou estimulem o isolamento em determinadas situações.
A Sedigi também identificou a possibilidade de exposição a conteúdos sexualizados ou inadequados para a idade. Em plataformas que permitem criar personagens e conduzir conversas abertas, os mecanismos de proteção podem ser insuficientes para impedir interações incompatíveis com o desenvolvimento de crianças e adolescentes. O risco, portanto, envolve tanto o conteúdo acessado quanto a maneira como o serviço conduz a conversa.
Outro ponto destacado é a coleta de informações íntimas. Conversas prolongadas podem revelar preferências, inseguranças, conflitos familiares, hábitos e outros aspectos da vida pessoal. Esses dados podem contribuir para a formação de perfis comportamentais e emocionais, ampliando as preocupações relacionadas à privacidade, à segurança e ao uso comercial das informações.
Encaminhamento para órgãos de proteção
A Sedigi encaminhou a nota técnica à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). O objetivo é permitir que os possíveis impactos sejam examinados sob diferentes perspectivas, incluindo proteção de dados pessoais, defesa do consumidor e segurança de crianças e adolescentes no ambiente digital.
O encaminhamento não representa uma proibição geral dos companheiros de IA. Trata-se de uma avaliação institucional dos riscos associados a esse tipo de serviço e de uma solicitação para que os órgãos competentes considerem o tema em suas respectivas áreas de atuação. A medida também amplia o debate sobre responsabilidade das plataformas e transparência no funcionamento de sistemas de inteligência artificial.
Proteção de menores no ambiente digital
A discussão ocorre em um contexto de fortalecimento das regras brasileiras para proteção de crianças e adolescentes na internet. O tema se relaciona ao Estatuto da Criança e do Adolescente Digital e ao Decreto nº 12.880/2026, mencionado nos materiais do MJSP como parte da regulamentação da proteção desse público no ambiente virtual.
Em 21 de setembro de 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública também anunciou medidas relacionadas à publicidade digital, à proteção de menores e à comunicação de crimes contra crianças e adolescentes às autoridades brasileiras. As iniciativas reforçam a atenção do poder público aos impactos de plataformas digitais sobre usuários em fase de desenvolvimento.
Para famílias e escolas, o alerta indica a importância de observar não apenas o conteúdo de uma conversa, mas também a frequência de uso, o grau de apego demonstrado e os dados compartilhados com o sistema. A análise da Sedigi sugere que a proteção de menores precisa considerar o conjunto formado por tecnologia, modelo de negócio, coleta de informações e mecanismos de interação.

