Bancos brasileiros aumentam a oferta de ativos digitais, enquanto o Banco Central reforça regras que aproximam cripto do sistema financeiro regulado.
O mercado brasileiro de ativos digitais entrou em uma nova fase: criptomoedas deixaram de aparecer apenas em exchanges especializadas e passaram a ocupar espaço cada vez maior dentro de bancos e fintechs. Reportagem publicada em 7 de setembro mostra que instituições como Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Nubank ampliaram o número de criptoativos disponíveis aos clientes, incluindo Bitcoin, Ether, stablecoins e produtos relacionados ao mercado de criptomoedas. A Receita Federal registrou R$ 505,5 bilhões em transações com criptoativos no Brasil em 2025, alta de 22% sobre 2024.
O movimento chama atenção porque ocorre ao mesmo tempo em que o Banco Central aperta a estrutura regulatória das prestadoras de serviços de ativos virtuais. A dúvida que surge é: se os bancos estão incorporando cada vez mais cripto, qual será o papel do DREX nesse novo sistema financeiro digital? A resposta passa por entender que DREX e criptomoedas utilizam tecnologias semelhantes em alguns aspectos, mas possuem objetivos, emissores e estruturas completamente diferentes.
Por que os bancos brasileiros estão entrando cada vez mais no mercado de criptomoedas?
A expansão da oferta de criptomoedas pelos bancos mostra que os ativos digitais estão deixando de ser um segmento restrito a empresas especializadas. Segundo levantamento divulgado pela imprensa, instituições tradicionais passaram a disponibilizar uma variedade maior de ativos, acompanhando a demanda de clientes que querem ter exposição ao mercado digital dentro de plataformas financeiras conhecidas. O movimento também ocorre em um ambiente regulatório mais estruturado, no qual o Banco Central assumiu papel central na supervisão das prestadoras de serviços de ativos virtuais.
Essa transformação é importante porque muda a relação entre o consumidor e a tecnologia blockchain. Antes, quem queria utilizar determinados criptoativos geralmente precisava procurar uma exchange especializada, criar uma conta e compreender diferentes mecanismos de custódia e transferência. Com bancos e fintechs oferecendo serviços relacionados a cripto, parte dessa experiência passa a ser integrada às plataformas financeiras tradicionais. Isso não elimina os riscos: criptomoedas continuam sujeitas a forte volatilidade, riscos tecnológicos, golpes, problemas de custódia e perdas decorrentes de decisões inadequadas.
O Banco Central vem construindo justamente uma estrutura para que esse mercado tenha regras mais claras. A Resolução BCB nº 520, por exemplo, disciplinou a constituição e o funcionamento das sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais e estabeleceu regras para instituições autorizadas que oferecem esses serviços. A norma também prevê que, a partir de 30 de outubro de 2026, instituições reguladas pelo BC não poderão realizar ou viabilizar determinadas operações com prestadores de serviços de ativos virtuais que não estejam autorizados ou em processo de autorização, observadas as exceções regulamentares.
Esse processo aproxima o mercado cripto de práticas já conhecidas no sistema financeiro, como controles, prestação de informações e supervisão. Em março de 2026, o Conselho Monetário Nacional também determinou que sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais fossem consideradas instituições financeiras para os fins da legislação de sigilo das operações financeiras. O resultado é uma mudança importante: o crescimento da cripto no Brasil passa a acontecer cada vez mais dentro de uma infraestrutura regulada, e não necessariamente à margem dela.
Onde o DREX entra nessa transformação do dinheiro digital?
É justamente nesse ponto que aparece a diferença fundamental entre DREX e criptomoedas. O DREX é uma iniciativa do Banco Central para criar uma infraestrutura de representação digital do real e permitir operações financeiras programáveis e baseadas em ativos tokenizados. Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas, por outro lado, são ativos digitais que possuem suas próprias redes, regras e mecanismos de emissão ou funcionamento. O DREX não pretende substituir o real por uma criptomoeda privada nem funcionar como concorrente direto do Bitcoin.
A tecnologia, entretanto, cria uma zona de convergência. O DREX foi concebido para permitir operações envolvendo ativos tokenizados e contratos inteligentes, enquanto o ecossistema cripto já utiliza blockchain, tokens, carteiras digitais e aplicações descentralizadas. Isso significa que uma das grandes mudanças do sistema financeiro pode ocorrer justamente na combinação entre infraestrutura regulada, tokenização e serviços digitais. O Banco Central vem desenvolvendo o projeto em etapas, enquanto o mercado privado experimenta aplicações envolvendo ativos digitais e blockchain.
Para o usuário comum, a distinção pode parecer abstrata, mas ela é fundamental. Uma criptomoeda como Bitcoin não é emitida pelo Banco Central e seu preço varia conforme as condições do mercado. O DREX, por sua vez, está associado à moeda oficial brasileira e à infraestrutura financeira supervisionada pelo Banco Central. Em termos simples, uma comparação possível é imaginar que o DREX esteja mais relacionado à modernização da infraestrutura do dinheiro brasileiro, enquanto as criptomoedas representam uma categoria própria de ativos e sistemas digitais.
A expansão dos bancos no mercado cripto também pode acelerar essa convergência tecnológica. À medida que instituições tradicionais oferecem ativos digitais, aumentam as possibilidades de integração entre contas, pagamentos, tokenização e serviços financeiros. Ao mesmo tempo, a regulação brasileira estabelece limites e obrigações para reduzir riscos relacionados a fraude, lavagem de dinheiro, custódia e operações internacionais com ativos virtuais. O Banco Central já determinou procedimentos específicos para informações sobre custódia, staking e outros serviços prestados por empresas do setor.
O que essa aproximação significa para o futuro das finanças digitais no Brasil?
A principal mudança não está simplesmente no fato de bancos oferecerem Bitcoin ou outras criptomoedas. O aspecto mais relevante é a formação de uma infraestrutura financeira na qual dinheiro tradicional, ativos tokenizados e criptoativos podem coexistir sob diferentes níveis de regulação. Esse cenário ajuda a explicar por que o DREX continua sendo importante mesmo com o crescimento das criptomoedas: as duas tecnologias podem participar da transformação digital do sistema financeiro por caminhos diferentes.
Para consumidores e empresas, isso tende a aumentar a importância de conceitos como tokenização, custódia digital, carteiras, contratos inteligentes e segurança cibernética. A própria regulamentação do Banco Central já prevê mecanismos de acompanhamento e envio de informações por prestadoras de serviços de ativos virtuais. Além disso, normas específicas passam a alcançar operações internacionais envolvendo ativos digitais, demonstrando que o mercado brasileiro está sendo integrado gradualmente às estruturas tradicionais de supervisão financeira.
A CVM também continua relevante quando o ativo digital ou a operação possuir características que o enquadrem no mercado de valores mobiliários. A autarquia mantém orientação específica sobre criptoativos e o mercado de capitais, reforçando que nem todo token deve ser tratado da mesma maneira. Essa divisão entre competências é importante para entender o cenário: o Banco Central supervisiona aspectos relacionados aos serviços de ativos virtuais dentro de seu mandato, enquanto a CVM atua quando há características de valores mobiliários.
Para o brasileiro, a consequência prática é que “dinheiro digital” não significa necessariamente uma única tecnologia. Pix, DREX, stablecoins, Bitcoin, Ethereum e ativos tokenizados podem cumprir funções diferentes dentro de uma economia cada vez mais digital. A tendência de bancos ampliarem a oferta de cripto mostra que essa transformação já está acontecendo, mas também evidencia a necessidade de educação financeira e digital. Quanto maior a integração entre o sistema financeiro tradicional e os ativos digitais, mais importante será verificar quem presta o serviço, quais regras se aplicam e quais riscos existem antes de qualquer operação.
O avanço da regulação não transforma criptomoedas em ativos sem risco, assim como a existência do DREX não significa que todos os problemas tecnológicos ou financeiros estejam resolvidos. Para o leitor, a questão mais importante é compreender que DREX e cripto não são sinônimos: eles representam propostas diferentes dentro da mesma transformação digital do dinheiro. O crescimento da oferta de cripto pelos bancos, somado à evolução da infraestrutura do DREX, indica que blockchain e tokenização deverão continuar influenciando o sistema financeiro brasileiro.
Fontes: Banco Central do Brasil · CVM · Resolução BCB nº 520

